
Já estamos de volta das nossas férias na Áustria. Tão logo a mamãe termine os seus afazeres a gente volta por aqui, com muitas fotos de Viena...
Daí que, felizmente, a minha surdez (causada pelo uso de antibióticos durante os meses em que vivi numa incubadora) tem solução. O "ouvido biônico" que os médicos do hospital Sant'Anna de Ferrara irão me implantar daqui a alguns dias permitirá que eu ouça tudinho, quase como uma pessoa ouvinte.
O implante coclear (um dispositivo eletrônico que começou a ser desenvolvido na década de 70 e que há 20 anos é realizado também em bebês pequeninos como eu) substitui a função da cóclea, transformando as ondas sonoras em impulsos elétricos e enviando-os ao nervo auditivo que, por sua vez, transmite estes estímulos ao cérebro.
Fazer o implante, porém, não significa curar a surdez. Embora ofereça ótimos resultados de audição, especialmente em crianças com menos de dois anos de idade, os aparelhos têm suas limitações. Além disso, terei que aprender a fazer o que todas as pessoas ouvintes fazem naturalmente: receber os estímulos sonoros, decodifica-los e relacioná-los às suas fontes. Durante este percurso de aprendizagem, que dura toda a infância, sessões de fonoaudiologia e, sobretudo, a dedicação da mamãe e do papai serão fundamentais para que eu consiga falar tudo direitinho.
Mas vamos a ele: o "ouvido biônico" é formado por dois componentes. A parte interna, fixa e imperceptível, é implantada debaixo da pele, atrás do ouvido, e tem um sensor com elétrodos que chegam até a cóclea. Já o aparelho externo possui um dispositivo que deve ser colocado na orelha (como as próteses tradicionais) e outro que deve ser "apoiado" ao componente interno através de um imã (os impulsos sonoros passam através da pele). Evidentemente, a parte externa deve ser retirada quando eu for dormir ou tomar banho e, nestas horas, não vou escutar nadinha.

(foto: Coclhear)
Mas como ainda sou um bebê, a parte externa que contém a bateria e que ficaria apoiada na orelha será colocada dentro de uma caixinha com um fio comprido o bastante pra que eu possa guardá-la dentro da minha roupinha. Isto porque o aparelho seria um tantinho pesado para as minhas delicadas orelhinhas.
O dispositivo começará a ser ativado cerca de um mês depois da cirurgia (nem todas as frequências de sons são ativadas na mesma ocasião). É claro que eu e a mamãe iremos contar aqui todos os passos desta minha aventura em busca do mundo dos sons. Até lá, titias e titios, tenham calma e, por favor, não falem todos ao mesmo tempo que é pra não emperrar a minha caixa de comentários... :o)
Nos últimos dias fui duas vezes ao hospital Bambino Gesú para refazer todos os exames de rotina. Estou muito bem - obrigada! -, mas os médicos e psicólogos recomendam que eu continue a fazer fisioterapia depois das férias de verão, porque os sinais da minha "grande prematuridade" ainda são evidentes.
A psicóloga disse que estou me desenvolvendo muito bem, mas continuo um pouquinho atrasada nos movimentos (não consegui encaixar todas as pecinhas nos seus devidos lugares!). Os médicos disseram que aos poucos a minha "idade correta" (13 meses) irá se igualar à "idade cronológica" (17 meses). Todavia, um pouquinho de exercícios irá me ajudar a recuperar o atraso mais rapidamente, inclusive porque não possuo todos os sentidos.
Também tive consulta com o todo-poderoso Dr. Catena, o oculista que me operou quando eu ainda estava na U.T.I. Depois de reconfirmar à mamãe que a cirurgia a laser foi um sucesso ("a retinopatia, que era muito extensa e agressiva, se estabilizou") e de lembrá-la (inutilmente) que se os médicos não tivessem intervido tempestivamente eu teria ficado completamente cega, o Dr. Catena solicitou exames mais profundos (ele ainda não sabia da minha surdez) e disse que quer me ver novamente (daqui a três meses).
E mesmo que ele tenha dito que meus olhinhos estão muito bem e que vejo tudo direitinho, a mamãe ficou um tantinho preocupada com estes novos exames. Tanto que ela até esqueceu de contar que, ao contrário do que parece, não sou estrábica. Ou seja, a minha leve vesguice é passageira. Quem te viu, quem te vê...
Falta exatamente um mês para a minha cirurgia de implante coclear, o aparelhinho que os médicos irão colocar dentro do meu ouvido e que irá fazer com que eu comece a ouvir tudo direitinho.
O clima aqui em casa é variável. Fora eu - que continuo na maior felicidade, me divertindo em esvaziar todas as gavetas e em escalar todos os obstáculos que encontro pela frente -, a mamãe e o papai passam da euforia à tristeza de um minuto ao outro. Eles estão preocupados porque vou ter que passar por uma nova operação e chateados porque nos próximos anos serei submetida a diversas consultas médicas, sessões de fonoaudiologia, manutenções do aparelhilho, etc. Enfim, eles prefeririam que eu pudesse ficar quietinha, numa boa.
Mas por outro lado, evidentemente, eles estão muito felizes - e aliviados - por saberem que existe solução para a minha surdez e que, portanto, dentro de pouco tempo vou poder conhecer o mundo dos sons.
A mamãe não vê a hora de ver a minha carinha quando eu escutar a voz dela pela primeira vez...
Para fugir da onda de calor africano que invadiu o país, este fim de semana buscamos refúgio ao pé da montanha.

Pra dizer a verdade, viajar de carro não é comigo não. Mas, enfim, enquanto não me deixam ocupar o lugar do motorista, a mamãe vai me distraindo como pode. Às vezes ela consegue...

A meta escolhida foi Pescasseroli, que apesar de ter apenas 2 mil habitantes é a principal cidade do Parque Nacional de Abruzzo, uma das maiores e mais antigas reservas naturais da Itália.

Entre bosques e montanhas, os moradores mais ilustres do parque são os ursos marsicanos, camurças e lobos. A região, aliás, é mais procurada de inverno por causa das diversas pistas de esqui.

Depois de tanta caminhada ecológica pelo parque - ora no canguru da mamãe, ora na charrete -, dormi mais que o urso e fiquei com mais fome que o lobo (que felizmente não vimos).

A novidade é que agora eu também como em restaurantes. Não, não a comidinha pronta que a mamãe leva pra mim. A do cardápio mesmo. Afinal, estamos na Itália: um macarrãzinho com molho de tomate simples e presunto cru, para uma lobinha simpática como eu, não faltam em lugar algum! :o)

A mamãe está novamente a procura de uma baby-sitter pra mim. Julia, a minha babá ex-noviça, decidiu mudar. Desta vez não de hábito, mas de emprego.
Apesar de ter-nos dado muito bem, Julia encontrou um trabalho de período integral. Estamos contentes por ela, porque assim ela poderá juntar logo o dinheiro para ir de férias ao Congo, levando - se até lá a família dela não aumentar - presentinhos para 17 sobrinhos. Ela nos indicou uma ex-colega (leia-se "freira"), mas a mamãe desconfia que eu esteja mais pra rebelde que pra noviça...
Julia prometeu que virá nos visitar e que trará seu enorme lenço para me amarrar nas costas e sairmos por aí, no melhor gingado congolese.