A nossa viagem para a Áustria começou com várias novidades pra mim: pegamos trem, avião e metrô. E embora a minha primeira viagem de avião fora da barriga da mamãe tenha sido muito curta, a minha alegria durou pouco.

Digamos que, na hora da decolagem e da aterrisagem, chorei um bocadinho... E nem a vasta oferta de leitura oferecida pelas gentis aeromoças conseguiu livrar os demais passageiros dos meus protestos contra a mudança de pressão na cabine.


Chegamos à Viena no começo da noite, debaixo de chuva. No dia seguinte, o tempo estava melhor e pudemos passear bastante. Este aí é o Palácio Rathaus, a sede da prefeitura de Viena, preparada para promover eventos culturais durante o verão.


Alguns detalhes da cidade:



A mamãe entendeu que ali passava ônibus. Ou melhor, que passavam três ônibus. Ou seja, entendemos que era um ponto. E ponto.

Pausa para o almoço. Ao fundo, a famosa Ópera de Viena.

Agora, vista de dentro.


A mamãe disse que Viena é considerada "a cidade da música erudita" e que poderemos voltar a visitá-la quando eu for maiorzinha para assistirmos a um espetáculo. Humm, sei não, acho que vou ter que estar muito, mas muuuuito maiorzinha mesmo pra gostar de ópera...

Para a alegria dos turistas e desespero dos taxistas turcos, no centro de Viena as charretes estão por todos as partes, de dia e de noite.

A cidade é limpinha graças a um mecanismo, acoplado ao próprio aninal, que recolhe a sujeira deixada por ele.

O papai e a mamãe não se interessaram muito em passear de charrete, mas eu, como boa turista, adorei, dei tchauzinho e me sentei várias vezes para vê-los passar...


E por falar em cavalos, o espetáculo da "famosa Escola Espanhola de Equitação de Viena, um dos mais antigos e refinados conservatórios de hipismo do mundo", estava fora da temporada. Melhor pra eles, não é? Aqui embaixo uma das estrelas, da raça Lipizzaner, em férias.

Outros detalhes da vida vienense.




Restaurante tradicional.


Restaurante "mediterrâneo" (com oliveira e tudo).

Barraquinha de hot-dog.

Outro ponto turístico é o Hotel Sacher, onde fazem a famosa torta de chocolate com geléia de damascos.

Escrita em 1832 por um jovem cozinheiro de apenas 16 anos, a verdadeira receita desta torta é mantida em segredo até hoje. A mamãe estava curiosa para saber se eu iria gostar de chocolate.

Não gostei e ainda derrubei a xícara de café do papai.

Em compensação, adorei o "apfelstrudel" (da Starbucks mesmo).

Auf Wiedersehen. É isso. Pra quem gostou, amanhã tem mais.

Já estamos de volta das nossas férias na Áustria. Tão logo a mamãe termine os seus afazeres a gente volta por aqui, com muitas fotos de Viena...
Daí que, felizmente, a minha surdez (causada pelo uso de antibióticos durante os meses em que vivi numa incubadora) tem solução. O "ouvido biônico" que os médicos do hospital Sant'Anna de Ferrara irão me implantar daqui a alguns dias permitirá que eu ouça tudinho, quase como uma pessoa ouvinte.
O implante coclear (um dispositivo eletrônico que começou a ser desenvolvido na década de 70 e que há 20 anos é realizado também em bebês pequeninos como eu) substitui a função da cóclea, transformando as ondas sonoras em impulsos elétricos e enviando-os ao nervo auditivo que, por sua vez, transmite estes estímulos ao cérebro.
Fazer o implante, porém, não significa curar a surdez. Embora ofereça ótimos resultados de audição, especialmente em crianças com menos de dois anos de idade, os aparelhos têm suas limitações. Além disso, terei que aprender a fazer o que todas as pessoas ouvintes fazem naturalmente: receber os estímulos sonoros, decodifica-los e relacioná-los às suas fontes. Durante este percurso de aprendizagem, que dura toda a infância, sessões de fonoaudiologia e, sobretudo, a dedicação da mamãe e do papai serão fundamentais para que eu consiga falar tudo direitinho.
Mas vamos a ele: o "ouvido biônico" é formado por dois componentes. A parte interna, fixa e imperceptível, é implantada debaixo da pele, atrás do ouvido, e tem um sensor com elétrodos que chegam até a cóclea. Já o aparelho externo possui um dispositivo que deve ser colocado na orelha (como as próteses tradicionais) e outro que deve ser "apoiado" ao componente interno através de um imã (os impulsos sonoros passam através da pele). Evidentemente, a parte externa deve ser retirada quando eu for dormir ou tomar banho e, nestas horas, não vou escutar nadinha.

(foto: Coclhear)
Mas como ainda sou um bebê, a parte externa que contém a bateria e que ficaria apoiada na orelha será colocada dentro de uma caixinha com um fio comprido o bastante pra que eu possa guardá-la dentro da minha roupinha. Isto porque o aparelho seria um tantinho pesado para as minhas delicadas orelhinhas.
O dispositivo começará a ser ativado cerca de um mês depois da cirurgia (nem todas as frequências de sons são ativadas na mesma ocasião). É claro que eu e a mamãe iremos contar aqui todos os passos desta minha aventura em busca do mundo dos sons. Até lá, titias e titios, tenham calma e, por favor, não falem todos ao mesmo tempo que é pra não emperrar a minha caixa de comentários... :o)
Nos últimos dias fui duas vezes ao hospital Bambino Gesú para refazer todos os exames de rotina. Estou muito bem - obrigada! -, mas os médicos e psicólogos recomendam que eu continue a fazer fisioterapia depois das férias de verão, porque os sinais da minha "grande prematuridade" ainda são evidentes.
A psicóloga disse que estou me desenvolvendo muito bem, mas continuo um pouquinho atrasada nos movimentos (não consegui encaixar todas as pecinhas nos seus devidos lugares!). Os médicos disseram que aos poucos a minha "idade correta" (13 meses) irá se igualar à "idade cronológica" (17 meses). Todavia, um pouquinho de exercícios irá me ajudar a recuperar o atraso mais rapidamente, inclusive porque não possuo todos os sentidos.
Também tive consulta com o todo-poderoso Dr. Catena, o oculista que me operou quando eu ainda estava na U.T.I. Depois de reconfirmar à mamãe que a cirurgia a laser foi um sucesso ("a retinopatia, que era muito extensa e agressiva, se estabilizou") e de lembrá-la (inutilmente) que se os médicos não tivessem intervido tempestivamente eu teria ficado completamente cega, o Dr. Catena solicitou exames mais profundos (ele ainda não sabia da minha surdez) e disse que quer me ver novamente (daqui a três meses).
E mesmo que ele tenha dito que meus olhinhos estão muito bem e que vejo tudo direitinho, a mamãe ficou um tantinho preocupada com estes novos exames. Tanto que ela até esqueceu de contar que, ao contrário do que parece, não sou estrábica. Ou seja, a minha leve vesguice é passageira. Quem te viu, quem te vê...
Falta exatamente um mês para a minha cirurgia de implante coclear, o aparelhinho que os médicos irão colocar dentro do meu ouvido e que irá fazer com que eu comece a ouvir tudo direitinho.
O clima aqui em casa é variável. Fora eu - que continuo na maior felicidade, me divertindo em esvaziar todas as gavetas e em escalar todos os obstáculos que encontro pela frente -, a mamãe e o papai passam da euforia à tristeza de um minuto ao outro. Eles estão preocupados porque vou ter que passar por uma nova operação e chateados porque nos próximos anos serei submetida a diversas consultas médicas, sessões de fonoaudiologia, manutenções do aparelhilho, etc. Enfim, eles prefeririam que eu pudesse ficar quietinha, numa boa.
Mas por outro lado, evidentemente, eles estão muito felizes - e aliviados - por saberem que existe solução para a minha surdez e que, portanto, dentro de pouco tempo vou poder conhecer o mundo dos sons.
A mamãe não vê a hora de ver a minha carinha quando eu escutar a voz dela pela primeira vez...